22 de Agosto
Dos 10 aos 17 anos, disputei muitos campeonatos de futebol de salão. E todo jogo o cenário era sempre o mesmo. Ginásio lotado, tambores, cornetas e torcedores eufóricos, vibrando e xingando a mãe do juiz. Apesar de toda a zoada e dos inúmeros gritos, só uma voz chegava para mim da arquibancada. No meio de um mar de sons estridentes e agudos, ela tocava meus ouvidos com intensidade, passando garra e vibração. O excesso às vezes me desconcentrava, incomodando um pouco. Mas a função de incentivo prevalecia a maior parte do tempo. Em certos momentos, a voz também vinha até mim referindo-se a outros. O juiz, como já falei, era a principal vítima. Porém, os jogadores e torcida adversária quase nunca escapavam dos “rugidos”. Essa mesma voz dos jogos de futebol foi muito presente também na minha fase – enjoativa, todavia de aprendizado – de pagodeiro. Sempre na frente do palco, ela solfejava refrões em sol maior e gritava como um típico fã, devoto do seu ídolo. E, do mesmo jeito que nos campeonatos, eu só ouvia ela. As outras chegavam emboladas, como num áudio de um DVD danificado. Por que só era esta a voz que eu ouvia? Simples. Era a voz da minha mãe. Aquela que escuto todos os dias, desde a minha morada no seu ventre. Por ser uma mulher, sinceramente, frenética, a ouço bastante. Em alguns momentos tento fazer com que fale menos, mas depois deixo pra lá. Ela é assim. Não vai mudar nunca. E nem quero que mude. Pois foi desta forma que aprendi a admirá-la, respeitá-la e julgá-la como um ser pouco comum, com uma capacidade incrível de ajudar as pessoas e uma bondade invejável. Às vezes se faz de rígida, mas é bastante carinhosa com todos e sensível ao extremo. Inteligente e linda, será sempre minha querida mãe. Erro com ela. Sou muitas vezes injusto. Mas tenho convicção de que a amo muito, como os filhos amam suas respectivas mães. Brigo, choro, esperneio. Mas preservo um sentimento forte, sincero, que guardarei para sempre. Talvez até em outras vidas. Pra mim, amor entre mãe e filho nunca fraqueja. É inesgotável. Hoje, 22 de Agosto, ela está fazendo aniversário. 49 anos. Resolvi preparar um texto em sua homenagem. Tomara que goste.
Abraços a todos.
Olha o livro
Desde garoto que convivo com a “arte da pirraça”. Já assisti a diversos espetáculos impressionantes, que encheram d´água os olhos de espectadores atentos - inclusive os meus - a gargalhar de piadas feitas para atingir um dos presentes na roda de amigos. Minha turma sempre foi assim. O chamado “aluguel” era o tema predileto de todas as conversas e reuniões. Nunca discutimos sobre nada. Política e religião não faziam parte dos nossos bate-papos. O futebol, com raça, conseguia em raros momentos dominar a peleja. Atualmente isso mudou um pouco, mas continua forte. Quando estamos juntos, boa parte dos nossos preciosos minutos é tomada por sarcasmos, ironias e muita, mas muita pirraça. Estaria mentindo se dissesse que não gosto de alugar alguém de vez em quando. Mas a influência dos meus amigos de infância com certeza intensificou este tipo de comportamento. Fiquei contaminado. Todo lugar onde eu ia queria abusar alguém. Podia ser amigo, colega, primo, namorada ou algum desconhecido na rua. Qualquer um. O importante era sorrir do próximo, fazer as pessoas sorrirem. Também sofria. Fui diversas vezes alvo. Mas de tanto praticar acabei calejando. Ainda bem que hoje sou outra pessoa, graças ao meu esforço e à consciência que adquiri do quanto é ruim magoar os outros, rir da cara deles. Pena que alguns dos meus amigos continuam a venerar a pirraça. Até uma teoria eles inventaram para mostrar aos "novatos" como o aluguel deve proceder. É o seguinte: sempre que estiver numa roda de amigos e um deles te abusar, nunca o alugue de volta. Se o fizer, estará demonstrando raiva. E quem demonstra raiva acaba sofrendo ainda mais, pois os outros se juntam ao mentor da piada e encarnam no coitado. Ou seja, você. Portanto, para a minha galera - acho o pensamento curioso – o alugado deve contra-atacar alguém diferente para tentar transferir a graça pra ele momentaneamente. Só depois de alguns minutos é que você pode “atirar” naquele que te pirraçou primeiro. Pois aí não tem como dizerem que está com raiva. Meus amigos afirmam que essa teoria está num livro. Ainda sem nome, mas muito admirado por todos. Quando algum de meus colegas aluga outro e recebe um golpe de volta no mesmo instante, o primeiro lembra logo: “Olha o livro”. Ao ouvir o lema sagrado, o segundo cala-se imediatamente e se conforma com os risos alheios a agredirem-lhe os tímpanos.
Um abraço a todos.
Vida de moleque. Tinha uns 14 anos mais ou menos. Dominado pela adolescência, vivia o fervor da descoberta sexual, estudos, futebol e surfe. Passava boa parte do meu tempo preocupado com as “gatinhas”, festas, concursos de lambada, games, e o mais importante: aprender a dirigir. Que ânsia, que sonho. Lembro até hoje como encarnava em meu pai. Chegava a ser bastante chato, algo comum para um adolescente. Na época o meu velho tinha um gol prata, daquele quadradão mesmo. Todo fim de semana era a mesma coisa: “Pai, na moral…”. Ainda bem que tenho um pai maravilhoso e paciente. Nas lições iniciais, achava que aprender a dirigir era impossível. Não entendia como um ser humano podia ter coordenação motora para executar tantas funções ao mesmo tempo e em frações de segundos. Pé direito para o acelerador e freio, pé esquerdo na embreagem, mão direita na marcha, duas mãos no volante, retrovisor de um lado, do outro, no meio. Depois que a gente aprende fica fácil, ridículo. Aprendi a dirigir na frente do condomínio em que moro, no Imbuí. Antigamente a rua ainda era tranqüila. Hoje os barraqueiros fazem a festa. Tornaram o local insuportável, intransitável. Espero que um dia isso acabe, pelo menos para mim, que pretendo mudar de endereço em breve. Apesar da “bagunça urbana”, o número de veículos não pára de crescer. Nos dias de hoje todo mundo tem carro. Até eu tenho a minha moqueca, um fiesta prata 99, carinhosamente apelidado de BMW. Só uma coisa me entristece quando lembro que possuo um carro: a gasolina. Apesar de amar o cheiro do combustível, fico maluco ao ver que a situação está a cada dia mais difícil, sem previsão de término para tantas altas. Por isso, recordar a época em que comecei a dirigir me traz muitas alegrias. Com cinco reais eu ia à forra. Ah, quanta saudade dos litros e mais litros a 0,63 R$.
Um abraço a todos.
Ah, se a mamãe soubesse
Essa semana, um amigo narrou-me uma história fantástica. Acho que nunca ouvi algo tão surpreendente em toda a minha vida. Antes de contá-la a você, gostaria de dizer que não citarei nomes, pois a história é verídica. De tão louca, você pode até não acreditar nela. Se achar que inventei, melhor para mim. Afinal, o cara precisa ser realmente muito criativo para inventar algo como o que vou lhes relatar agora... Há alguns anos, um casal apaixonado casou-se numa dessas igrejas de Salvador. A festa foi linda, perfeita, do jeito que a "moça" sempre sonhou. O rapaz, ao contrário do que acontece com a maioria dos noivos, estava radiante, sorrindo para todos e com uma alegria pouco comum. Depois do casório, os dois foram direto para lua-de-mel. Durante a viagem, também viveram as mil maravilhas. O amor entre eles era tão explícito que deixava qualquer solteirona – homem solteiro está quase sempre satisfeito - morrendo de inveja. Pense nos casais apaixonados de todos os filmes de romance que já viu. A paixão deles era maior. Algo raro, magnífico. Terminada a lua-de-mel, retornaram para o novo lar. Um apartamento bonito, espaçoso, muito bem decorado e com uma vista de elastecer a retina. Na semana da volta, só ela trabalhou. Contou para as colegas como tinha sido a viagem e como o marido era especial, demonstrando um estado de plenitude. Na sexta-feira da mesma semana, a "moça" resolveu fazer uma surpresa para o amado. Saiu mais cedo do trabalho, alugou uns filmes, comprou um vinho e um presentinho sexy para o seu tigrão. Entrou na garagem do prédio ansiosa. Não via a hora de se jogar nos braços do marido. Assim que apertou o botão para chamar o elevador, lembrou que tinha esquecido os filmes no carro, voltando para pegá-los. Isso só aumentou a sua ansiedade. Finalmente chegou ao apartamento. Para não estragar a surpresa, abriu a porta devagar. Viu que o marido não estava na sala e foi entrando em silêncio até o quarto. A porta estava entreaberta. Assim que abriu, bruscamente, deu de cara com a maior decepção da sua vida: seu marido estava na cama com outro. Foi isso mesmo que eu disse, OUTRO. E o pior vem agora. O pior não, o absurdo, o inaceitável, o estapafúrdio. O outro era o PAI dela. O pai da noiva. Aquele que a carregava no colo, que colocava ela para dormir e dizia: "Ô, filhinha, seu papai te ama tanto. Saiba que eu sempre farei de tudo para te fazer muito feliz". É, amigo(a). Pode acreditar, isso é verídico.
Um abraço a todos.
Larí-Larí
Em qualquer bairro, rua ou vilarejo, existem personagens raros, conhecidos por todos os moradores do local. Alguns ganham fama por serem chatos. Outros, ao contrário, alegram muita gente, com suas piadas, histórias empolgantes ou habilidade para tocar um violão, cantar. Onde moro, no Imbuí, existe uma figura raríssima e que diverte bastante as pessoas com a sua “retórica de malandro”. O bom malandro, claro. Aquele que é esperto sem passar ninguém para trás. Seu nome é Luís Alberto. Por ser um brasileiro como nós, amantes de uma boa gelada, passa horas proseando nas barracas da minha rua nos finais de semana. Tem uma posição clássica. Chega na frente do estabelecimento, apóia o braço esquerdo no balcão, pede uma cervejinha e vira-se para quem se aproxima, seja para comprar algo ou simplesmente bater um papo com o ilustre personagem. Apaixonado e grande conhecedor do futebol, é quase um Milton Neves. Cita escalações do Leônico de 73, fala de um craque da Catuense de 81 e por aí vai. Diz que ele mesmo já jogou muita bola. Acho que chegou a passar pelo Vitória, time do seu coração. Mas, além do futebol, é informado no campo político e um “Profeta de bar”. Faz previsões de transformações sociais e adora filosofar, recorrendo à ditados populares e trocadilhos. Estes também são usados na hora em que conta piadas ou brinca com alguma “beldade” que passe na frente da barraca. Já presenciei cenas clássicas. Ele sempre avista a moça primeiro que todo mundo. Muitas vezes nem se interessa pela mulher, mas faz a piada para divertir a galera. Murcha a barriga, toma um bom gole de cerveja e se prepara. Quando ela passa, dá um sorriso de galã e solta a frase: “Larí, Larí. Cuidado para a cauda desse avião não pegar em mim”. Gargalhadas tomam conta do ambiente, chamando a atenção do público da barraca. Mas o mais engraçado dessa história, por incrível que pareça, é que toda mulher que passa gosta.
Um abraço a todos.
Esta é a dúvida que mais tem me atormentado nos últimos meses. Tenho pensado bastante no assunto. Mas não consigo desvendar de forma alguma o segredo para o que quero: encontrar a melhor maneira de criar uma música. Creio que perguntar a si mesmo sobre o que deve ser feita primeiro, a letra ou a harmonia, é algo comum na vida de um compositor em formação. Muitos músicos experientes dizem que não existem regras. Varia. Às vezes uma vem antes. Outras vezes ocorre o inverso. Até criações com as duas agindo juntas acontecem em certos casos. Se a melodia for bonita e transmitir uma sensação intrigante – independente do tema que mais se aproxima – vale a pena conservá-la para uma ocasião especial. Um momento em que o assunto feito para ela chegará, impulsionando a sensibilidade do autor e sua análise do tema escolhido. O mesmo vale para a letra. O problema é que ambas, até para aqueles reconhecidamente vistos como talentosos, não chegam com tanta facilidade. Pergunte a Chico se as coisas fantásticas que faz surgem todos os dias. Será que Gil possui um estimulante cerebral que o deixa sempre pronto para criar a qualquer momento? E Vinicius, possuía uma alma abençoada, dotada de um dom mágico? Certamente, não. Os grandes compositores se divertem com o que fazem, têm uma sensibilidade aguçada, são bons de verdade. Mas também ralam bastante para dar origem a canções de tanta qualidade. Ah, como gostaria de conversar com todos eles. Tomar uma cerveja num boteco. Tirar milhares de dúvidas. Descobrir macetes. Quem não gostaria... Porém, acho que nem os maiores dos mestres achariam uma resposta exata para minha pergunta. Aliás, acho que se um dia eu tivesse a oportunidade de questioná-los sobre qual o segredo para criar grandes músicas, eles diriam: “Bota pra fora, meu filho... Bota pra fora...”
Um abraço a todos.
Falar de casamento é complicado. Principalmente para quem vive num país extremamente católico como o nosso. Mesmo assim, resolvi expressar-me sobre o assunto. Mas sem agredir ninguém. Afinal, não quero sofrer nenhum tipo de repressão ou ganhar inimizades. A questão é que, ao meu ver, a festa de casamento é um verdadeiro teatro. Uma peça estrelada por atores fantásticos, e que nunca saiu de cartaz. Se já foi a um casório, você há de convir que ele pode ser visto tranqüilamente como uma encenação hilária. Uma comédia que, ao contrário do que muitos pensam, possui diversos protagonistas. Além dos “pombinhos apaixonados”, os padrinhos engomados e os pais dos noivos, há também os amantes encubados, o padre prolixo, as chatas que choram o tempo inteiro e as encalhadas. Estas últimas, atrizes de primeira, que interpretam com grandeza as suas personagens. Elas, sem precisar do auxílio de dublês, costumam tropeçar umas nas outras - se estapeando de forma voraz - a fim de agarrar o elemento mais cobiçado de qualquer festa de casamento: o bouquet da noiva. Para as encalhadas, casar é uma obrigação. Se o marido for bonito, rico e inteligente, então, melhor ainda. Certo dia, conversando com um amigo, soube de um caso em que uma mulher quebrou o salto da outra na hora da disputa pelo “precioso”. Depois do desastre, arrancaram os cabelos, quebraram as unhas, borraram a maquiagem e uma delas rasgou o vestido, comprado seis meses antes, especialmente para a festa. Um detalhe interessante é que, após a batalha, o bouquet ficou intacto, tornando-se ainda mais sagrado, devido ao seu poder mágico, que resistiu a um duelo típico dos medievais. Outra cena comum, e muito engraçada no casamento, é a cara de tensão do noivo. Enquanto os convidados acham que ele está nervoso por motivos considerados “corretos” - ansiedade, talvez - o coitado se corroe por completo devido ao desespero. Naquele momento é a sua liberdade que está em jogo. A partir dali a vida dele sofrerá uma transformação irreparável. E por mais que haja um divórcio no futuro, o “tsunami” deixará o seu estrago. Mas, na maioria dos casos, ele se sai bem. Só depende de uma boa direção para que interprete seu personagem com louvor. Para concluir, vale ressaltar a parte da peça em que a mãe da noiva tira um pedaço do bolo com a intenção de guardá-lo por muitos anos. Tudo para que o casamento da filhinha querida seja duradouro, sirva de exemplo e agrade o público espectador. Palmas para o casório.
Um abraço a todos.
Precavido e Desleixado
Projeto Experimental. Último semestre da Faculdade. Todo mundo na correria para formar com louvor. Reuniões todos os dias. Alegrias, decepções, estresses, suor e muitas gargalhadas. Certo dia, estávamos no estúdio acompanhando a gravação dos spots da Campanha. Eu e mais dois grandes amigos: menino Eek e Tionilo. Além de Fábio – que já era amigo de Tio - e os donos da produtora, Daniel e Guga. Depois deste dia, os três também viraram nossos amigos. Era um sábado. Mas mesmo assim a gente estava no maior gás. Pois a empolgação com as idéias era enorme. Durante o trabalho, todos notaram que Eek era o mais tenso, como de costume. Ficava de um lado para o outro o tempo inteiro. Reclamava quando a galera fazia alguma brincadeira. Falava do horário. Pedia silêncio. Preocupava-se em deixar os roteiros
Um abraço a todos.
Surfista calhorda
Domingo de sol, praia cheia, sem vento, céu límpido, tomado por um azul magistral, convidativo. Perfeito para o bailar das aves e solidão das pequenas nuvens aventureiras, que se arriscaram à toa contra a imensidão do “imperador Ciano”. As praias estavam lotadas. Biquínis para um lado, vendedores de capelinha para o outro, muita cerveja, frescoball, babinha na areia fofa e, como não poderia deixar de haver: surfe. O mar parecia o reflexo do que eu via no céu. Totalmente liso, estava ideal para a prática do esporte. Mas com um porém: as ondas estavam gigantes. Tinham quase dois metros. Para a maioria dos surfistas soteropolitanos, acostumados com ondas menores e mais fracas, este era um forte indício de que algum tipo de perrengue estava por vir. Fui para Stella com dois amigos. Ao estacionarmos o carro, percebi uma coisa nada comum: havia vários surfistas com suas pranchas na areia. Ao olhar o mar, notei que a atitude deles era em respeito a Netuno, que, sem que se saiba o motivo, tinha acordado de mau-humor, optando por engolir impiedosamente quem o desafiasse. Pensei bastante. Não queria entrar. Não surfava há mais de um mês. E quando via aquelas ondas avassaladoras, pocando contra a superfície da água, a idéia de sentar numa barraca, tomar um bronze e descansar, tornou-se ainda mais forte. Mas não teve jeito. Caí. Achei que dava para conseguir. Era só esperar a calmaria para poder chegar ao pico. O problema seria pegar as ondas sem correr o risco de, na hora da volta, “tomar uma série na cabeça”. Impossível. Quando passei da primeira rebentação, vi montanhas d´água se aproximando. Já cansado, não pensei duas vezes. Virei a prancha e desisti. Saí, sentei na areia e fiquei vendo os “corajosos”. Ninguém dropava as ondas. Mesmo assim, achei-me na figura de um surfista calhorda. Daqueles que dizem adorar o mar, o esporte, mas só vão à praia durante o verão, pegar merrecas. Fiquei triste, pensando o que iria fazer para salvar a minha honra. Cinco minutos depois, desencanei. Vi o elastique da prancha de um dos meus amigos quebrar, fazendo com que ele tivesse de sair a nado, enfrentado acrobacias giratórias impostas pela brutalidade das ondas. O outro se ralou nas pedras, após descer numa morra que, por sorte, não o engoliu. E só depois que os dois estavam fora do mar, cheios de dores e se lamentando pela merda que fizeram, foi que eu consegui compreender que estava enganado quanto ao verdadeiro significado de surfista calhorda.
Um abraço a todos.
Bateu saudade
Como é bom estar aqui novamente. Perto das letras, das regras gramaticais, das concordâncias, associações de idéias. Perto da liberdade de “vomitar” os assuntos que vivem causando engulho na minha mente. Ai, Deus, como é bom... A última vez que escrevi no meu blog foi antes do São João. Ficar sem exteriorizar meus pensamentos durante todo esse tempo foi muito doloroso. Por isso, resolvi falar hoje sobre a saudade que tanto senti deste meu aprendizado. No decorrer deste recesso literário, percebi como a prática da escrita faz falta em minha vida. E olhe que sou apenas um iniciante no ramo, com muita coisa a desvendar pela frente. Mas apesar de ainda estar possuído por um espírito de calouro, já consigo perceber que, quando não escrevo, sinto-me vazio, desconectado de um mundo que precisa me ouvir, sem importar quando, como ou onde. As palavras tornaram-se amigas importantes para mim. Preciso delas. Não vivo sem elas. E o que é melhor: eu acho que elas gostam da minha amizade. Temos uma sinergia interessante. As palavras nunca me desprezaram. Por isso, preciso continuar lendo bastante, escrevendo muito. Errando, consertando. Acertando, sorrindo. Tudo para que eu possa tratá-las como merecem. Com respeito, carinho e muita atenção. As palavras são damas raras, vestidas de cetim, prontas para serem amadas pelos seus homens. Para elas, cozinharia sem reclamar. Passaria ferro, cuidaria das crianças, lavaria a louça. Até o cocô do cachorro eu limparia. Elas merecem muito mais. Pois são superiores, inteligentes. O que seria do nosso senso crítico sem as palavras? Estaria eu aqui, num movimentar frenético de dedos, escrevendo tudo isso? Provavelmente não. Sem as palavras, não sei o que seria de mim. O que sei é que prefiro parar por aqui. Afinal, se for continuar declarando o meu amor por elas, pode ser que esse texto jamais termine.
Um abraço a todos.
Famosos, porém perdidos.
Hoje, ao chegar à agência, peguei o jornal para dar seqüência a minha rotina informativa e dei de cara com uma nota assustadora: Papa Bento XVI diz que os “malvados” querem destruir os valores humanos. Fiquei bastante curioso para saber quem seriam os discípulos de Lúcifer que têm atormentado a cabeça do principal líder católico do planeta. Corri para a matéria e comecei a catar, linha por linha, os nomes dos “demoninhos” que, a partir desta declaração, podem cair nas graças da mídia, tornando-se os mais novos artistas não-mundanos. Quem sabe eles não formam um grupo com o nome de The Five Demon? Talvez gostem de música e resolvam lançar um CD com hits de sucesso, a fim de ganharem milhares de fãs, capazes de fazer muitas coisas para ter um pouco de atenção dos seus ídolos. Inclusive entregar-lhes a alma. O que acontece é que não vi, em momento algum da matéria, a lista dos “malvados” comentados pelo Papa. Será que ele não citou a relação por motivo de força maior? Afinal, essa força está representada
Um abraço a todos.
Para todo mensalão não há uma reação
É incrível. Ou melhor, um absurdo. Sempre que vejo um caso de corrupção no nosso país - praticamente todos os dias – fico revoltado. É só ler algo ou assistir um telejornal para que eu fique instigado a tentar descobrir porque existem pessoas tão más por aqui. O que devemos desejar para aqueles que não possuem um pingo sequer de amor ao próximo? Não sei. Qualquer coisa, menos o mal. Pois isso eles já tem, e muito. Bem... Apesar da minha insatisfação com a roubalheira, não posso negar que, como a maioria do nosso povo, faço muito pouco para mudar o coração dessas pessoas, desperdiçando chances de colaborar com a diminuição dessa triste situação. Mas nem por isso deixarei de reclamar. Se protestando, mesmo sem grande expressividade, nada muda, calado é que eu não vou ficar. Principalmente depois dessa bomba que acaba de cair em Brasília: o mensalão. Mais uma prova do descaso e da falta de vergonha daqueles que governam o país. Com trinta mil reais por mês, dinheiro ganho por cada deputado envolvido no esquema, daria para alimentar pelo menos cem famílias, já que muitas delas conseguem sobreviver com um salário mínimo de apenas trezentos reais. Juntando todos os mensalões, mais pessoas ainda seriam beneficiadas. Quando lembro que este dinheiro é usado em churrasquinhos de magnatas, vinhos caríssimos, fins de semana em casas de praia, passeios de lancha, jantares em restaurantes chiquérrimos e viagens ao exterior, minha cabeça pesa. Pior, fica fora de sintonia, travada de raciocínio lógico ou bom senso. Esta montanha de dinheiro serviria como um auxílio muito importante para erradicação da pobreza que impera em nosso país. Ajudar-nos-ia a viver em uma sociedade mais justa. O Brasil é a segunda nação mais desigual do mundo. Como pode isso? Nem Ele lá de cima sabe... É amigos(as), infelizmente, críticas como esta raramente tem algum efeito. Quase nunca convencem alguém da importância do assunto. Poucos são aqueles que refletem sobre ele e acabam por esboçar uma reação. Pelo contrário. Na maioria das vezes não se movimentam, não têm atitude. Jamais fazem algo – o mínimo que seja - para acabar com isso. Todos. Inclusive o autor deste texto.
Um abraço.
Ouçam irmãos
Vencedor. O título de uma música que despertou em mim um grande interesse por uma banda diferente de muitas que já vi e ouvi até hoje: o Los Hermanos. Não sou doente pelos caras. Detesto idolatria. Mas não posso negar que o som deles mexeu com a minha vida. Suas letras fazem-me refletir mais sobre o meu destino, valores, romantismo e sobre esse mundo louco e atordoado que vivemos. Além disso, a banda possui uma sensibilidade melódica e musicalidade impressionantes. Tocam muito. Suas canções são regadas de harmonias belíssimas, improvisações perspicazes e arranjos que reforçam bem o tipo de sentimento abordado. Há na obra deles composições que falam muito de amor – no sentido romântico da palavra - o que encanta pra caramba. Mas suas músicas também enfatizam outros temas, como o bem, o mal, a amizade, o ódio, o orgulho, o ciúme e a capacidade incompreensível dos humanos de destruir as coisas boas criadas por Deus. Ele também é louvado pelos Hermanos. Sem nenhum fanatismo, mas com uma força comovente, capaz de emocionar quem os ouve. Até hoje, só fui a um único show dos caras e confesso que fiquei impressionado. A galera sabe todas as músicas. Do começo ao fim. Pulam, agitam os braços – eu estava no bolo - e formam um coro muito bonito, carregado de energias positivas, que se encontram para agraciar o trabalho de uma banda que toca corações com conteúdo, com amor e simpatia. Enfim... Considero o Los Hermanos um som do caralho. E apesar de não ser um expert em música – apenas toco alguns instrumentos - recomendo com ênfase.
Um abraço a todos.
Que horas são?
Você é daquele tipo de pessoa que muitas vezes já teve vontade de mandar o tempo pra merda? Eu também. Fico desolado sempre que penso no regime de escravidão em que vivemos. No meu caso, acordar às sete e meia, chegar no trabalho às nove, sair para almoçar ao meio dia, retornar às duas e seguir de volta para casa às sete, indo dormir às onze. Todo dia é a mesma coisa. Não muda nada. Em alguns momentos me questiono se Deus é realmente o grande senhor deste mundo. Será? Pois, para mim, o tempo é quem comanda tudo. É o imperador do nosso destino. Agimos com base no que deseja. Estamos à mercê dos seus anseios. O que é que a gente faz sem ele? Nada. Completamente nada. Pisa em nós. Machuca. Somos meros fantoches guiados por mãos malignas. Teria sido aquele lá das profundezas da terra o criador do tempo? Dizem que foi o próprio homem. Mas não estaria o bendito possuído? Não importa. O tempo está aí, presente sempre. Em qualquer esquina que passar você o encontra. Até no cantinho dessa tela em sua frente. Nós andamos com ele no pulso, ditando o ritmo da nossa vida. Às vezes penso: e se algum dia armássemos uma emboscada para aniquilar o desgraçado? Não adiantaria. Acabaríamos todos loucos, desorientados. O tempo nos contaminou. Precisamos do seu veneno para sobreviver. É uma merda chegar a essa conclusão. Dá vontade de sair quebrando qualquer relógio que vejo pela frente. Ou então correr por aí esperneando, dizendo a todos para se mexerem, tomarem uma atitude. Tudo bem que este é um pensamento de certa forma utópico. Mas tenha certeza: sou capaz de qualquer coisa para conseguir minha carta de alforria.
Um abraço a todos.
Enfim em paz
Nos meus dois primeiros dias na nova agência, cheguei a ficar um pouco assustado. Pois nunca trabalhei com um método onde o redator precisa fazer diversos títulos, extraindo da quantidade a qualidade. Mas ainda bem que foi somente um susto mesmo. Tudo está mais calmo agora. A minha angústia foi dissipada e acabou ontem por se autodestruir. Conversei com minha namorada, alguns amigos e recebi recados de outros. Ouvi a todos com muita atenção. Fico feliz por saber que posso contar com eles. Além disso, meditei bastante. Como são bons os momentos de reflexão. Se conseguíssemos fazer deles uma constante em nossa vida, certamente seria mais fácil resolvermos as tempestades que às vezes nos atormentam. Parar, pensar, avaliar conseqüências, reconhecer a importância dos desafios... Se agíssemos assim, este mundo estaria completamente diferente. Talvez melhor, talvez mais chato. Mas com muito menos problemas do que temos hoje. Pois cometeríamos poucos erros e daríamos mais valor à espiritualidade, nos descobrindo com mais intensidade a cada dia, a fim de encontrarmos o segredo para a nossa evolução plena. Aquela que um dia nos transformará em deuses, imortais, puros de alma - isso se não virarmos uma.
Depois do baque, creio que evolui. Um pouco, mas consegui. Cheguei à conclusão de que posso absorver com essa experiência na SLA artimanhas muito boas para que eu me torne um redator mais completo. Afinal, como sempre trabalhei bastante o meu lado de construção “conceitual”, nada me impede de reforçar agora o meu “eu tituleiro”, aguçando minha capacidade de ter boas sacadas, criar grandes títulos, testar formulações diversas até chegar à ideal e ampliar o meu campo de raciocínio no que diz respeito à associação de idéias. Preciso estar sempre atento para não atrofiar o primeiro, que é o método que defendo e tenho grande afinidade. Posso conseguir tentando, aos poucos, vender idéias legais que eu venha a ter sozinho ou com a galera – o que prefiro por ser um co-autor - nos raros instantes de bate-bola. Nesse momento, estou feliz por chegar ao final do texto com uma sensação reconfortante, que me enche de esperança e me dá coragem para seguir em frente, sem nunca desistir. Além de por na minha cara esse sorriso maroto de recém-nascido.
Um abraço a todos.
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