Precavido e Desleixado
Projeto Experimental. Último semestre da Faculdade. Todo mundo na correria para formar com louvor. Reuniões todos os dias. Alegrias, decepções, estresses, suor e muitas gargalhadas. Certo dia, estávamos no estúdio acompanhando a gravação dos spots da Campanha. Eu e mais dois grandes amigos: menino Eek e Tionilo. Além de Fábio – que já era amigo de Tio - e os donos da produtora, Daniel e Guga. Depois deste dia, os três também viraram nossos amigos. Era um sábado. Mas mesmo assim a gente estava no maior gás. Pois a empolgação com as idéias era enorme. Durante o trabalho, todos notaram que Eek era o mais tenso, como de costume. Ficava de um lado para o outro o tempo inteiro. Reclamava quando a galera fazia alguma brincadeira. Falava do horário. Pedia silêncio. Preocupava-se em deixar os roteiros
Um abraço a todos.
Surfista calhorda
Domingo de sol, praia cheia, sem vento, céu límpido, tomado por um azul magistral, convidativo. Perfeito para o bailar das aves e solidão das pequenas nuvens aventureiras, que se arriscaram à toa contra a imensidão do “imperador Ciano”. As praias estavam lotadas. Biquínis para um lado, vendedores de capelinha para o outro, muita cerveja, frescoball, babinha na areia fofa e, como não poderia deixar de haver: surfe. O mar parecia o reflexo do que eu via no céu. Totalmente liso, estava ideal para a prática do esporte. Mas com um porém: as ondas estavam gigantes. Tinham quase dois metros. Para a maioria dos surfistas soteropolitanos, acostumados com ondas menores e mais fracas, este era um forte indício de que algum tipo de perrengue estava por vir. Fui para Stella com dois amigos. Ao estacionarmos o carro, percebi uma coisa nada comum: havia vários surfistas com suas pranchas na areia. Ao olhar o mar, notei que a atitude deles era em respeito a Netuno, que, sem que se saiba o motivo, tinha acordado de mau-humor, optando por engolir impiedosamente quem o desafiasse. Pensei bastante. Não queria entrar. Não surfava há mais de um mês. E quando via aquelas ondas avassaladoras, pocando contra a superfície da água, a idéia de sentar numa barraca, tomar um bronze e descansar, tornou-se ainda mais forte. Mas não teve jeito. Caí. Achei que dava para conseguir. Era só esperar a calmaria para poder chegar ao pico. O problema seria pegar as ondas sem correr o risco de, na hora da volta, “tomar uma série na cabeça”. Impossível. Quando passei da primeira rebentação, vi montanhas d´água se aproximando. Já cansado, não pensei duas vezes. Virei a prancha e desisti. Saí, sentei na areia e fiquei vendo os “corajosos”. Ninguém dropava as ondas. Mesmo assim, achei-me na figura de um surfista calhorda. Daqueles que dizem adorar o mar, o esporte, mas só vão à praia durante o verão, pegar merrecas. Fiquei triste, pensando o que iria fazer para salvar a minha honra. Cinco minutos depois, desencanei. Vi o elastique da prancha de um dos meus amigos quebrar, fazendo com que ele tivesse de sair a nado, enfrentado acrobacias giratórias impostas pela brutalidade das ondas. O outro se ralou nas pedras, após descer numa morra que, por sorte, não o engoliu. E só depois que os dois estavam fora do mar, cheios de dores e se lamentando pela merda que fizeram, foi que eu consegui compreender que estava enganado quanto ao verdadeiro significado de surfista calhorda.
Um abraço a todos.
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