Só o cheiro continua me agradando

 

Vida de moleque. Tinha uns 14 anos mais ou menos. Dominado pela adolescência, vivia o fervor da descoberta sexual, estudos, futebol e surfe. Passava boa parte do meu tempo preocupado com as “gatinhas”, festas, concursos de lambada, games, e o mais importante: aprender a dirigir. Que ânsia, que sonho. Lembro até hoje como encarnava em meu pai. Chegava a ser bastante chato, algo comum para um adolescente. Na época o meu velho tinha um gol prata, daquele quadradão mesmo. Todo fim de semana era a mesma coisa: “Pai, na moral…”. Ainda bem que tenho um pai maravilhoso e paciente. Nas lições iniciais, achava que aprender a dirigir era impossível. Não entendia como um ser humano podia ter coordenação motora para executar tantas funções ao mesmo tempo e em frações de segundos. Pé direito para o acelerador e freio, pé esquerdo na embreagem, mão direita na marcha, duas mãos no volante, retrovisor de um lado, do outro, no meio.  Depois que a gente aprende fica fácil, ridículo. Aprendi a dirigir na frente do condomínio em que moro, no Imbuí. Antigamente a rua ainda era tranqüila. Hoje os barraqueiros fazem a festa. Tornaram o local insuportável, intransitável. Espero que um dia isso acabe, pelo menos para mim, que pretendo mudar de endereço em breve. Apesar da “bagunça urbana”, o número de veículos não pára de crescer. Nos dias de hoje todo mundo tem carro. Até eu tenho a minha moqueca, um fiesta prata 99, carinhosamente apelidado de BMW. Só uma coisa me entristece quando lembro que possuo um carro: a gasolina. Apesar de amar o cheiro do combustível, fico maluco ao ver que a situação está a cada dia mais difícil, sem previsão de término para tantas altas. Por isso, recordar a época em que comecei a dirigir me traz muitas alegrias. Com cinco reais eu ia à forra. Ah, quanta saudade dos litros e mais litros a 0,63 R$.

 

Um abraço a todos.




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