Olha o livro

 

Desde garoto que convivo com a “arte da pirraça”. Já assisti a diversos espetáculos impressionantes, que encheram d´água os olhos de espectadores atentos - inclusive os meus - a gargalhar de piadas feitas para atingir um dos presentes na roda de amigos. Minha turma sempre foi assim. O chamado “aluguel” era o tema predileto de todas as conversas e reuniões. Nunca discutimos sobre nada. Política e religião não faziam parte dos nossos bate-papos. O futebol, com raça, conseguia em raros momentos dominar a peleja. Atualmente isso mudou um pouco, mas continua forte. Quando estamos juntos, boa parte dos nossos preciosos minutos é tomada por sarcasmos, ironias e muita, mas muita pirraça. Estaria mentindo se dissesse que não gosto de alugar alguém de vez em quando. Mas a influência dos meus amigos de infância com certeza intensificou este tipo de comportamento. Fiquei contaminado. Todo lugar onde eu ia queria abusar alguém. Podia ser amigo, colega, primo, namorada ou algum desconhecido na rua. Qualquer um. O importante era sorrir do próximo, fazer as pessoas sorrirem. Também sofria. Fui diversas vezes alvo. Mas de tanto praticar acabei calejando. Ainda bem que hoje sou outra pessoa, graças ao meu esforço e à consciência que adquiri do quanto é ruim magoar os outros, rir da cara deles. Pena que alguns dos meus amigos continuam a venerar a pirraça. Até uma teoria eles inventaram para mostrar aos "novatos" como o aluguel deve proceder. É o seguinte: sempre que estiver numa roda de amigos e um deles te abusar, nunca o alugue de volta. Se o fizer, estará demonstrando raiva. E quem demonstra raiva acaba sofrendo ainda mais, pois os outros se juntam ao mentor da piada e encarnam no coitado. Ou seja, você. Portanto, para a minha galera - acho o pensamento curioso – o alugado deve contra-atacar alguém diferente para tentar transferir a graça pra ele momentaneamente. Só depois de alguns minutos é que você pode “atirar” naquele que te pirraçou primeiro. Pois aí não tem como dizerem que está com raiva. Meus amigos afirmam que essa teoria está num livro. Ainda sem nome, mas muito admirado por todos. Quando algum de meus colegas aluga outro e recebe um golpe de volta no mesmo instante, o primeiro lembra logo: “Olha o livro”.  Ao ouvir o lema sagrado, o segundo cala-se imediatamente e se conforma com os risos alheios a agredirem-lhe os tímpanos.

 

Um abraço a todos.




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