22 de Agosto




Dos 10 aos 17 anos, disputei muitos campeonatos de futebol de salão. E todo jogo o cenário era sempre o mesmo. Ginásio lotado, tambores, cornetas e torcedores eufóricos, vibrando e xingando a mãe do juiz. Apesar de toda a zoada e dos inúmeros gritos, só uma voz chegava para mim da arquibancada. No meio de um mar de sons estridentes e agudos, ela tocava meus ouvidos com intensidade, passando garra e vibração. O excesso às vezes me desconcentrava, incomodando um pouco. Mas a função de incentivo prevalecia a maior parte do tempo. Em certos momentos, a voz também vinha até mim referindo-se a outros. O juiz, como já falei, era a principal vítima. Porém, os jogadores e torcida adversária quase nunca escapavam dos “rugidos”. Essa mesma voz dos jogos de futebol foi muito presente também na minha fase – enjoativa, todavia de aprendizado – de pagodeiro. Sempre na frente do palco, ela solfejava refrões em sol maior e gritava como um típico fã, devoto do seu ídolo. E, do mesmo jeito que nos campeonatos, eu só ouvia ela. As outras chegavam emboladas, como num áudio de um DVD danificado. Por que só era esta a voz que eu ouvia? Simples. Era a voz da minha mãe. Aquela que escuto todos os dias, desde a minha morada no seu ventre. Por ser uma mulher, sinceramente, frenética, a ouço bastante. Em alguns momentos tento fazer com que fale menos, mas depois deixo pra lá. Ela é assim. Não vai mudar nunca. E nem quero que mude. Pois foi desta forma que aprendi a admirá-la, respeitá-la e julgá-la como um ser pouco comum, com uma capacidade incrível de ajudar as pessoas e uma bondade invejável. Às vezes se faz de rígida, mas é bastante carinhosa com todos e sensível ao extremo. Inteligente e linda, será sempre minha querida mãe. Erro com ela. Sou muitas vezes injusto. Mas tenho convicção de que a amo muito, como os filhos amam suas respectivas mães. Brigo, choro, esperneio. Mas preservo um sentimento forte, sincero, que guardarei para sempre. Talvez até em outras vidas. Pra mim, amor entre mãe e filho nunca fraqueja. É inesgotável. Hoje, 22 de Agosto, ela está fazendo aniversário. 49 anos. Resolvi preparar um texto em sua homenagem. Tomara que goste.



Abraços a todos.




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